3.2.12

Lumière

Toda noite um passarinho vêm me visitar.

Entra pela a janela aberta e me canta uma música bonita, e tudo se torna leve como seu peso sobre meu peito, nas madrugadas de luzes e sons.

Quando desperto e olho pela janela vazia, percebo como sua canção entrou no meu dia. Me pego ansiando pelo momento perfeito, o silêncio que precede a alvorada, quando os passarinhos cantam.

Meu passarinho me fez viver da espera. E nunca foi tão leve esperar.

17.1.12

Paraíso num fio de algodão

A gente vai aprendendo a se desprender.
É como soltar-se aos poucos do medo de que, se a gente soltar o próprio medo, o que importa irá embora. E o medo é o medo do vento forte.
É o medo de que, ao entregarmos aquela pipa bonita ao ar, o estirante vai estourar e só fiapos da seda colorida dançarão no céu de tempestade. A gente tem medo é da perda, do vento que leva embora os sonhos de rabiola, fita e cola.
Há então quem passe o tempo todo olhando para sinais. As folhas de árvores que dançam numa direção, o sentido que cai a água que escorre, a força que as roupas balançam no varal. Tentam até medir o invisível, à dezenas de metros de altura, como quem descobre padrões maiores que eles mesmos. São os meteorologistas de elevador, graduados na teoria da dor.
Gente assim não solta pipa, pois sentem apego pelo medo do vento forte. Desistiram das cores que dançam contra o céu ora cinzento, ora azul profundo. Desistiram da sensação de leve controle sobre o brinquedo frágil, a linha que puxa a pele com delicadeza, o som distante das fitas que chicoteiam o ar. Desistiram do amor por todas essas coisas frágeis, cuja perda é dor maior que se espera.
Só que um dia a gente aprende a se desprender. Mesmo sabando que pode enroscar, que um homem maldoso de cortante e pipa preto dará um rasante e veremos outra peça flutuar para longe, que a chuva pode surgir do nada, reduzindo o papel fino do novo sonho à furos e rasgos. Mesmo sabendo que poderá doer no peito a saudade das cores que voam.
Nós continuaremos dando linha, só para saber quão alto chegaremos.
E quem sabe um dia, contra todas as expectativas de quem acha que conhece o vento, subamos tão alto que achemos o paraíso através de um fino fio de algodão.

3.1.12

Ainda faltam palavras.

Eu queria encontrar palavras que curam.
Elas comporiam a frase de maneira mestral, e com um sucesso quase arcano, mudariam a realidade conforme o contexto do que se diz.
Mas palavras assim não existem.
Existem palavras que ferem, palavras que destroem, palavras que acalmam, palavras que ordenam, palavras que enganam, palavras que prometem. Só não existem palavras que concertam.
Se existissem, eu as diria assim, calmamente, e veria pousar na rede a paz feito passarinho. E eu pousaria a cabeça no colchão feito astronauta. Soletraria todo dia quando na soleira de casa pusesse o pé, e não bastando, a cantaria na rua alto como numa conversa empolgada.
Queria dizer "desculpa", "perdão", "eu sei", "por favor", "eu também", "sabia que", e ao dizer, mudaria o coração do sujeito oculto. Criaria um texto perfeito. Saberia controlar meu coração.
Eu queria construir castelos de letras. Empilhar prosas e erguer um reino. Cansado de adjetivos uniformes, verbos inflexíveis, pronomes impessoais, queria uma palavra que defina, domine e salve. Eu queria dizer o que amor queria dizer.
Mas não existem palavras que curem.

16.9.11

Coisas simples

Estou preso a 25 anos nessa cela de carne, de onde vejo o mundo todo através de duas pequenas e frágeis janelas. Não se enganem com o que dizem os livros, essa cela é segura. Não há maneira de fugir dela com vida.
E dentro dela só há espaço para uma alma.
É como um invólucro, nada assim desconfortável, mal cheiroso ou penoso. Pelo menos, na maioria do tempo.
Não sou desses de fazer drama por estar preso, entende? Sei que sou culpado, e carrego o peso da culpa por ter sido errado desde o princípio. E me dou bem com isso. Sei que estou pagando meu tempo aqui dentro, e pretendo andar da melhor forma possível, sem causar maiores problemas dos que eu já estou metido.
Mas há quem enlouqueça.
A maioria deles enlouquecem.
Você vê, esse presídio é muito grande, um planeta inteiro de almas presas em celas de carne. Eles andam de um lado ao outro, fazendo suas atividades recreativas, tomando seu banho de sol e lambendo as colheres de gelatina, sem sequer notar. Vivem se divertindo com seus joguinhos de sombra.
Alguns se organizam de forma curiosa: Fingem não estarem presos. Dizem que já são livres e que todos os outros infelizes deveriam segui-los, eles, os corretos, para alcançar a mesma liberdade.
São loucos, eu digo. Todos temos um caminho longo a percorrer. Aqui não existem atalhos. Podem confiar que eu estou certo, porque lá na frente esses mesmos homens encontrarão aquilo do que tentam fugir. Diante de suas janelas, provavelmente em um período quieto da noite, pousará o gárgula com o espelho, e então eles morderão os lábios. Alguns sequer sobrevivem a isso. Partem antes de cumprir a sentença.
É triste, eu sei. Mas é como as coisas funcionam aqui.
Existem aqueles que se perdem dentro da própria cela, inclusive. Chamam isso de "ouvir o coração", ou qualquer termo sem sentido que o valha. Esses obedecem o que lhes vêm de súbito à cabeça. São capazes de criar mentiras da matéria prima do desencanto, com saliva, sangue e suor. Passam o tempo todo tentando executar suas ideias de fuga, cavando buracos na cela, na alma e no pavimento.
É fácil encontrá-los: são os que repousam ofegantes encostados nas paredes da masmorra, culpando e chorando, falando sozinhos com as pontas dos dedos em carne viva.
Ninguém aqui é livre, e esse drama todo suja as paredes da cela por dentro. Isso sim impregna o ar com um cheiro forte, e nos faz duvidar que o sol lá fora está brilhando num dia novo. Já conheci quem passe o tempo todo pintando as paredes de fora de sua cela, enquanto por dentro todas as coisas apodrecem.
Eles podem decidir o que quiserem, mas minha cela não é lugar para ratos e baratas.
Hoje um passarinho pousou na murada. Piou três vezes, e então o descobri, aninhando penas. Sabe, não sei ler. Não essa língua do criador de todas as coisas. O passarinho, sabendo disso, me disse entre chilros que o nome dessa prisão é Intensidade, e eu sorri com ar lúcido. Parecia fazer sentido.
Agora sei o que está escrito no uniforme de todos os homens que cavam, de todos aqueles que ordenam estalando chicotes e de todos que se chamam rei e desfilam com mantos invisíveis.
Mas não vou contar a ninguém sobre meu passarinho. Eles precisam olhar com os próprios olhos. Quem sabe aprendam a ler.
Um dia derrubo as paredes e deixo o sol raiar aqui dentro. Sobre meu leito final, acendendo e queimando todas os pequenos veios de escuridão.
Quando a luz iluminar meu rosto limpo, olharei ela de frente. Não como quem não tem o que temer, pois na verdade, temerei. Mas como quem sabe o que enfrenta, pois a luz será bem vinda.
Sabe, só tenho medo de quem teme a verdade.
Quando a luz iluminar e as paredes caírem, não precisarei mais dessas janelas. Voarei com meu passarinho para a nuvem mais baixa do céu, onde comeremos marshmallows e falaremos de coisas simples.
Enquanto isso não acontece, a nuvem carregada passa tapando o sol, arrastando uma escuridão passageira. E daqui vejo homens se escondendo em suas celas com medo das sombras.
Intensidade...
Haha.
Faz todo sentido.

2.9.11

per feito feito im per feito

fez-se per feito
e para per pe tuar tal per feição
com pos um texto no con texto
sem saber que im per feito se per pe tuou

per ce beu ao des co brir
que co briu im per feições ím pares
que con cebiam feições ín fimas
que com prova vam per feições com pletas

pleno com a des co berta
co briu-se de con tento
des cons truiu o con texto
tentou a feição dis creta
e con cre ti zou-se im per fei to