7.9.13

Minhas caras

A máscara está proibida,
as más caras públicas estão
todas proibidas porque são
de uma gente bandida.

A cara do desgosto
que tanto ameaça nosso passeio,
nosso caminho do fio, o meio
dessa gente sem rosto.

Da alienação.

A hipocrisia tá ilegal
não pode mais prometer
(e não cumprir).
E se vê algo leve,
(enquanto quer rir)
fazer cara de mal.

Não pode cozinhar ser,
e quando põe na mesa,
a tal máscara reveza
e sendo se torna ter

Não pode tentar viver, não.
Não pode teatro, dor, fuga.
Não pode creme anti-ruga.
Não pode coração.

Masca rasa a angústia
de quem acha normal
sonhando um país igual
reclamar da dor do nunca,

marchando nu na frente
de capacete e farda,
cacetete e má vontade,
sorrindo, ensolarado e passando mal,
desmaiando no meio da avenida.
Gás, pimenta e incerteza,
debaixo do maior sol da vida
do velho carnaval.

17.8.13

O descanso dourado

De toda geografia de sua superfície
sem barrancos ou desníveis,
de toda planície e montanha,
montes de sonhos e suspiros,
de todos doces de teus sabores,
de todas amoras e amores,
há um pedaço onde eu morreria:
o gigantesco vale de teu ombro,
comendo o doce de teu cheiro,
junto à cascata de seus cachos,
à sombra de teu pescoço,
vendo o sol que te dá tempero,
se pondo em teu pelo, loiro.

E se lá repouso,
sonho que nado em tesouros,
num mundo feito de luz, amor e ouro.

Flowers in Your Hair by The Lumineers on Grooveshark

6.8.13

Ilhas de silêncio

Às vezes, quando tento dizer o que sinto, descubro que é tão indizível que chega a ser insentível. Então procuro palavras novas, que também só fazem sentido para mim, e percebo que o mar também é coração, e está cheio de ilhas de silêncio.

19.7.13

Acorda, menino.

Sente culpa até quando acorda, e se não desperta para isso, tem tudo para se enforcar na corda que sentiu apertar.
Porque paixão só serve para poesias e ideais, para a ânsia de um mundo melhor, mas para o mundo real, não.
Mundo real é feito de matéria concreta, de pesado concreto cinza, que não flutua na imensidão de sonhos líquidos desse frágil oceano.
Acorda, menino. Não sonhe sobre o sonho. Vista seu terno cinza e se deixe afundar. O barco do desejo que navega não tem leme e pode vir à pique nesse mar de corais e pedras afiadas.
A corda, menino.
Acorda pra vida.
A cor da vida.

21.5.13

Quanto é que dói?


Ela chorou porque cortou cebola, ele disse, surpreso porque chorava ao vê-la chorar. Posso suportar a cebola, mas não ver a garota que amo chorar. Ouvindo tal coisa, o outro riu, até que caiu, e chorou. Não era tristeza ou legumes, mas dor. O que era um absurdo para aquele tal que vivia na academia suportando os pesos no ferro, com o discurso que a dor é natural, e não havia lágrima para se derramar ao senti-la, mas descobriu-se com câncer. E chorou. Assim como chorou a estátua de pedra na frente do prédio onde foi internado, uma fonte deformada, gárgula esculpida sobre a piscina de carpas. Carpas choram o tempo todo. E também chorou o menino que deixou cair o pirulito dentro d'água. Chorou de alegria a mãe no reencontro, com um gosto de tristeza no fundo, e se alegrou até chorar novamente, na despedida. Chorou o bon vivant ao se ver sozinho em um apartamento mobiliado no centro da cidade, enquanto assistia um documentário em que uma criança africana, barriga do tamanho da lua, rifle na mão, conquistado ao matar os pais, chorava por ver negado o direito de se abraçar uma boneca. Chorou superman ao ver a kriptonita. Chorou o casal desfeito. Chorou o amigo perdido.
Então anjos confusos tramaram, rindo, destruir o mundo. Achavam escandaloso uma gente tão forte ser tão fraca.
Porque anjos queriam chorar.