16.9.11

Coisas simples

Estou preso a 25 anos nessa cela de carne, de onde vejo o mundo todo através de duas pequenas e frágeis janelas. Não se enganem com o que dizem os livros, essa cela é segura. Não há maneira de fugir dela com vida.
E dentro dela só há espaço para uma alma.
É como um invólucro, nada assim desconfortável, mal cheiroso ou penoso. Pelo menos, na maioria do tempo.
Não sou desses de fazer drama por estar preso, entende? Sei que sou culpado, e carrego o peso da culpa por ter sido errado desde o princípio. E me dou bem com isso. Sei que estou pagando meu tempo aqui dentro, e pretendo andar da melhor forma possível, sem causar maiores problemas dos que eu já estou metido.
Mas há quem enlouqueça.
A maioria deles enlouquecem.
Você vê, esse presídio é muito grande, um planeta inteiro de almas presas em celas de carne. Eles andam de um lado ao outro, fazendo suas atividades recreativas, tomando seu banho de sol e lambendo as colheres de gelatina, sem sequer notar. Vivem se divertindo com seus joguinhos de sombra.
Alguns se organizam de forma curiosa: Fingem não estarem presos. Dizem que já são livres e que todos os outros infelizes deveriam segui-los, eles, os corretos, para alcançar a mesma liberdade.
São loucos, eu digo. Todos temos um caminho longo a percorrer. Aqui não existem atalhos. Podem confiar que eu estou certo, porque lá na frente esses mesmos homens encontrarão aquilo do que tentam fugir. Diante de suas janelas, provavelmente em um período quieto da noite, pousará o gárgula com o espelho, e então eles morderão os lábios. Alguns sequer sobrevivem a isso. Partem antes de cumprir a sentença.
É triste, eu sei. Mas é como as coisas funcionam aqui.
Existem aqueles que se perdem dentro da própria cela, inclusive. Chamam isso de "ouvir o coração", ou qualquer termo sem sentido que o valha. Esses obedecem o que lhes vêm de súbito à cabeça. São capazes de criar mentiras da matéria prima do desencanto, com saliva, sangue e suor. Passam o tempo todo tentando executar suas ideias de fuga, cavando buracos na cela, na alma e no pavimento.
É fácil encontrá-los: são os que repousam ofegantes encostados nas paredes da masmorra, culpando e chorando, falando sozinhos com as pontas dos dedos em carne viva.
Ninguém aqui é livre, e esse drama todo suja as paredes da cela por dentro. Isso sim impregna o ar com um cheiro forte, e nos faz duvidar que o sol lá fora está brilhando num dia novo. Já conheci quem passe o tempo todo pintando as paredes de fora de sua cela, enquanto por dentro todas as coisas apodrecem.
Eles podem decidir o que quiserem, mas minha cela não é lugar para ratos e baratas.
Hoje um passarinho pousou na murada. Piou três vezes, e então o descobri, aninhando penas. Sabe, não sei ler. Não essa língua do criador de todas as coisas. O passarinho, sabendo disso, me disse entre chilros que o nome dessa prisão é Intensidade, e eu sorri com ar lúcido. Parecia fazer sentido.
Agora sei o que está escrito no uniforme de todos os homens que cavam, de todos aqueles que ordenam estalando chicotes e de todos que se chamam rei e desfilam com mantos invisíveis.
Mas não vou contar a ninguém sobre meu passarinho. Eles precisam olhar com os próprios olhos. Quem sabe aprendam a ler.
Um dia derrubo as paredes e deixo o sol raiar aqui dentro. Sobre meu leito final, acendendo e queimando todas os pequenos veios de escuridão.
Quando a luz iluminar meu rosto limpo, olharei ela de frente. Não como quem não tem o que temer, pois na verdade, temerei. Mas como quem sabe o que enfrenta, pois a luz será bem vinda.
Sabe, só tenho medo de quem teme a verdade.
Quando a luz iluminar e as paredes caírem, não precisarei mais dessas janelas. Voarei com meu passarinho para a nuvem mais baixa do céu, onde comeremos marshmallows e falaremos de coisas simples.
Enquanto isso não acontece, a nuvem carregada passa tapando o sol, arrastando uma escuridão passageira. E daqui vejo homens se escondendo em suas celas com medo das sombras.
Intensidade...
Haha.
Faz todo sentido.

2.9.11

per feito feito im per feito

fez-se per feito
e para per pe tuar tal per feição
com pos um texto no con texto
sem saber que im per feito se per pe tuou

per ce beu ao des co brir
que co briu im per feições ím pares
que con cebiam feições ín fimas
que com prova vam per feições com pletas

pleno com a des co berta
co briu-se de con tento
des cons truiu o con texto
tentou a feição dis creta
e con cre ti zou-se im per fei to

28.8.11

14:36

Amor e suas mil caras. Uma só é pura.
Tem horas que você ama tanto, que tem vontade de proteger.
Tem horas que você ama tanto, que tem vontade de destruir.
Mas quando não ama, não importa o que faça,
nada importa.

19.8.11

O controlador do tempo

Teve tempo de comprar um relógio.
Comprou para ela, mas não de presente. Usava no pulso, checando o tempo que ela levaria para chegar.
Porque o tempo era engraçado. Parecia trapacear, se estendendo quando buscava seu fim, se encurtando quando tentava fazê-lo mais longo.
E era terrível viver assim, pois um homem deve controlar seu tempo.
Ela chegou atrasada, como sempre. Mas não fora de tempo.
O tempo, esse bandido, se multiplicou sob a sombra do conforto da presença dela. E o rapaz, de carona, se esqueceu de dar valor a todos os segundos.
Então ela foi embora às três da manhã daquele domingo.
Não sei quanto tempo depois, se casou com outra, pois o tempo tudo cura. E nunca era tarde para essas coisas.
Com o tempo, teve filhos.
O tempo os fez crescer.
Durante esse tempo, trabalhou.
Se tornou um homem de pouco tempo.
E o tempo se esticou novamente, tecendo um lar, endurecendo suas ideias e deixando seus sonhos para mais tarde.
Afinal, depois teria tempo para cuidar das coisas importantes. As urgentes são para ontem, e ele não tinha tempo.
Então, naquela terça-feira chuvosa, às quatro e vinte e cinco da tarde, saiu para comprar pães. Perdeu o tempo na hora de atravessar a rua, e o caminhoneiro, apressado, estava sem tempo para parar.
Teve tempo de pensar em toda sua vida, como dizem os filmes do tempo do bom cinema: pensou em cada ano, e em progressão, lembrou-se dos momentos. Nos momentos, o tempo se esticou pela última vez: Viu cada toque. Cada beijo. Cada não. Cada milésimo de segundo projetado na tela de suas pupilas, o instante pausado de sua respiração.
Enquanto reconheceu seu relógio esmagado sob a roda, entendeu, sem mais tempo para se arrepender:
Ele nunca teve controle, afinal, tempo não é dinheiro.

8.8.11

Confissões

Confesso, querida, que me calei.
Esperei silenciar o que gritava, e minha alma secou no peito.
E por isso, repito, que confesso:

Confesso, acordo pensando em seu sorriso sincero.
Confiro se não chegou uma mensagem nova em meu celular.
Encontro as antigas, e esqueço de escovar os dentes.

Confesso, vejo fotos suas com olhar de joalheiro.
Ando decorando semblantes, traços e expressões.
Coisas lapidadas que cintilam e me fazem pensar raridade.

Confesso, tudo teu parece vir em pares.
E seu abraço, o melhor do mundo, tem um gosto próprio:
Uma música que acompanha, uma ideia que completa.

Confesso, de tão grande, esse afeto me assusta.
Como bicho acoado, contemplo assustado de dentro da toca
esse som estrondoso, esse convite singelo, isso que não entendo.

Mas confesso, mesmo temendo, destrancarei as velhas portas.
Abrirei janelas dos quartos vazios.
Voltarei a regar jardins abandonados.

Pois confesso: o que aprendi a fazer sozinho, querida,
como bicho assustado, joalheiro atarefado ou sonhando desperto,
só parece ter graça quando a tua graça está aqui por perto.