Alguns dias a alma parece líquida dentro de meu espírito quebrado. Ela vaza, e eu me pego escorrendo por aí. Se querem saber por onde passo, é só ver as paredes sujas de saudade, o chão alagado de desejos e minhas roupas manchadas de dores de todas as cores. Eu poderia tentar concerto, mas depois de muito esforço, descobri que não existe remédio para espírito de cristal trincado. Por isso, passo meus dias fabricando sonhos. No final das horas perdidas, remendado e sorrindo a passos largos nesse aguaceiro das almas, sei que continuarei fazendo sujeira em meu caminho, mas nunca estarei totalmente vazio. O fogo me fará inteiro e cristalino.
A máscara está proibida, as más caras públicas estão todas proibidas porque são de uma gente bandida.
A cara do desgosto que tanto ameaça nosso passeio, nosso caminho do fio, o meio dessa gente sem rosto.
Da alienação.
A hipocrisia tá ilegal não pode mais prometer (e não cumprir). E se vê algo leve, (enquanto quer rir) fazer cara de mal.
Não pode cozinhar ser, e quando põe na mesa, a tal máscara reveza e sendo se torna ter
Não pode tentar viver, não. Não pode teatro, dor, fuga. Não pode creme anti-ruga. Não pode coração.
Masca rasa a angústia de quem acha normal sonhando um país igual reclamar da dor do nunca,
marchando nu na frente de capacete e farda, cacetete e má vontade, sorrindo, ensolarado e passando mal, desmaiando no meio da avenida. Gás, pimenta e incerteza, debaixo do maior sol da vida do velho carnaval.
De toda geografia de sua superfície
sem barrancos ou desníveis,
de toda planície e montanha,
montes de sonhos e suspiros,
de todos doces de teus sabores,
de todas amoras e amores,
há um pedaço onde eu morreria:
o gigantesco vale de teu ombro,
comendo o doce de teu cheiro,
junto à cascata de seus cachos,
à sombra de teu pescoço,
vendo o sol que te dá tempero,
se pondo em teu pelo, loiro.
E se lá repouso,
sonho que nado em tesouros,
num mundo feito de luz, amor e ouro.
Às vezes, quando tento dizer o que sinto, descubro que é tão indizível que chega a ser insentível. Então procuro palavras novas, que também só fazem sentido para mim, e percebo que o mar também é coração, e está cheio de ilhas de silêncio.
Sente culpa até quando acorda, e se não desperta para isso, tem tudo para se enforcar na corda que sentiu apertar.
Porque paixão só serve para poesias e ideais, para a ânsia de um mundo melhor, mas para o mundo real, não.
Mundo real é feito de matéria concreta, de pesado concreto cinza, que não flutua na imensidão de sonhos líquidos desse frágil oceano.
Acorda, menino. Não sonhe sobre o sonho. Vista seu terno cinza e se deixe afundar. O barco do desejo que navega não tem leme e pode vir à pique nesse mar de corais e pedras afiadas.
A corda, menino.
Acorda pra vida.
A cor da vida.