4.2.14

Alquimia

Aquele medo todo que esmaga o menino, ninguém consegue ver. O pequenino sofre, e se esvai de tristeza, e perde a cabeça tentando explicar o invisível amargor de sentir o que todo mundo diz ser ar.
Para ele, é fogo
Ele rola no chão, e todo mundo chama de louco o menino que grita de dor, e pede água, e pede refrigério que não vem.
E de tanto queimar, o fogo apaga.
E ao apagar, ele fumega no chão, pedindo perdão para todo mundo que ouviu gritar no desespero seco e cego, na angústia louca e ilógica, no sofrimento profundo e duro que não consegue explicar.
O menino se ergue, como se nunca houvesse caído.
E cada vez se ergue mais duro, couro queimado do fogo invisível e do chão áspero sem alívio. Lívido.
Um dia, menino, você aprende a queimar em silêncio, como todos eles. Não é questão de tempo, mas de talento: Transformar o fogo em ar. E respirar.

17.9.13

Vazamento de alma

Alguns dias a alma parece líquida dentro de meu espírito quebrado. Ela vaza, e eu me pego escorrendo por aí.
Se querem saber por onde passo, é só ver as paredes sujas de saudade, o chão alagado de desejos e minhas roupas manchadas de dores de todas as cores. Eu poderia tentar concerto, mas depois de muito esforço, descobri que não existe remédio para espírito de cristal trincado.
Por isso, passo meus dias fabricando sonhos. No final das horas perdidas, remendado e sorrindo a passos largos nesse aguaceiro das almas, sei que continuarei fazendo sujeira em meu caminho, mas nunca estarei totalmente vazio.
O fogo me fará inteiro e cristalino.

The Transfiguration by Sufjan Stevens on Grooveshark

7.9.13

Minhas caras

A máscara está proibida,
as más caras públicas estão
todas proibidas porque são
de uma gente bandida.

A cara do desgosto
que tanto ameaça nosso passeio,
nosso caminho do fio, o meio
dessa gente sem rosto.

Da alienação.

A hipocrisia tá ilegal
não pode mais prometer
(e não cumprir).
E se vê algo leve,
(enquanto quer rir)
fazer cara de mal.

Não pode cozinhar ser,
e quando põe na mesa,
a tal máscara reveza
e sendo se torna ter

Não pode tentar viver, não.
Não pode teatro, dor, fuga.
Não pode creme anti-ruga.
Não pode coração.

Masca rasa a angústia
de quem acha normal
sonhando um país igual
reclamar da dor do nunca,

marchando nu na frente
de capacete e farda,
cacetete e má vontade,
sorrindo, ensolarado e passando mal,
desmaiando no meio da avenida.
Gás, pimenta e incerteza,
debaixo do maior sol da vida
do velho carnaval.

17.8.13

O descanso dourado

De toda geografia de sua superfície
sem barrancos ou desníveis,
de toda planície e montanha,
montes de sonhos e suspiros,
de todos doces de teus sabores,
de todas amoras e amores,
há um pedaço onde eu morreria:
o gigantesco vale de teu ombro,
comendo o doce de teu cheiro,
junto à cascata de seus cachos,
à sombra de teu pescoço,
vendo o sol que te dá tempero,
se pondo em teu pelo, loiro.

E se lá repouso,
sonho que nado em tesouros,
num mundo feito de luz, amor e ouro.

Flowers in Your Hair by The Lumineers on Grooveshark

6.8.13

Ilhas de silêncio

Às vezes, quando tento dizer o que sinto, descubro que é tão indizível que chega a ser insentível. Então procuro palavras novas, que também só fazem sentido para mim, e percebo que o mar também é coração, e está cheio de ilhas de silêncio.

19.7.13

Acorda, menino.

Sente culpa até quando acorda, e se não desperta para isso, tem tudo para se enforcar na corda que sentiu apertar.
Porque paixão só serve para poesias e ideais, para a ânsia de um mundo melhor, mas para o mundo real, não.
Mundo real é feito de matéria concreta, de pesado concreto cinza, que não flutua na imensidão de sonhos líquidos desse frágil oceano.
Acorda, menino. Não sonhe sobre o sonho. Vista seu terno cinza e se deixe afundar. O barco do desejo que navega não tem leme e pode vir à pique nesse mar de corais e pedras afiadas.
A corda, menino.
Acorda pra vida.
A cor da vida.

21.5.13

Quanto é que dói?


Ela chorou porque cortou cebola, ele disse, surpreso porque chorava ao vê-la chorar. Posso suportar a cebola, mas não ver a garota que amo chorar. Ouvindo tal coisa, o outro riu, até que caiu, e chorou. Não era tristeza ou legumes, mas dor. O que era um absurdo para aquele tal que vivia na academia suportando os pesos no ferro, com o discurso que a dor é natural, e não havia lágrima para se derramar ao senti-la, mas descobriu-se com câncer. E chorou. Assim como chorou a estátua de pedra na frente do prédio onde foi internado, uma fonte deformada, gárgula esculpida sobre a piscina de carpas. Carpas choram o tempo todo. E também chorou o menino que deixou cair o pirulito dentro d'água. Chorou de alegria a mãe no reencontro, com um gosto de tristeza no fundo, e se alegrou até chorar novamente, na despedida. Chorou o bon vivant ao se ver sozinho em um apartamento mobiliado no centro da cidade, enquanto assistia um documentário em que uma criança africana, barriga do tamanho da lua, rifle na mão, conquistado ao matar os pais, chorava por ver negado o direito de se abraçar uma boneca. Chorou superman ao ver a kriptonita. Chorou o casal desfeito. Chorou o amigo perdido.
Então anjos confusos tramaram, rindo, destruir o mundo. Achavam escandaloso uma gente tão forte ser tão fraca.
Porque anjos queriam chorar.

23.4.13

Aquela sensação de vazio

As vezes tenho a impressão que viver consiste em usar todos os recursos possíveis para fugir desesperadamente da verdade, até que, em um dia luminoso e leve, a morte sorrateira e de passos mansos nos faz parar de mentir. A verdade impiedosa é que tudo é inútil e vazio.
Vaidade das vaidades, diz o pregador, tudo é vaidade.


Hoje, se vivo, vivo porque amo. Maior que meu medo do escuro é o medo de não ter quem apague a luz quando eu fechar os olhos.

11.3.13

A guerra e os jardins

Querer um mundo melhor dói.
Tenho notado como nossas paixões sempre nos levam ao tombo de um lado ou de outro desse muro alto, pois o extremismo não é um largar-se total à uma ideia enganosa. É mais sorrateiro e fatal.
É um simples passo em falso.
Tenho notado como nós somos intrinsecamente maus. Sem correção. Corruptos até a alma. Tenho notado como fazemos tudo para defender ideias antigas que não funcionam em um ideal mais elevado de vida. Tenho notado como lutamos por mesquinharias e bandeiras pessoais à despeito do interesse de todos. Tenho notado que, quando o garoto invade nosso quintal para florir a cabeça de sua paixão juvenil, baleamos sem dó a inocência invasora. Nossos quintais estão cheios de sangue.
Mas tenho notado que lutamos, e por isso digo que dói tanto essa dor de querer mudar a paisagem de almas que nos cercam. Nós lutamos contra inimigos invisíveis, que muitas vezes não conhecemos sequer o nome, porque isso é da natureza humana. Tentamos corrigir o que está errado, porque sabemos de nossa total perversão, consciente ou inconscientemente. Nós somos nosso próprio demônio e o inferno para todos aqueles que vivem conosco. Nós queremos aniquilar o mal que vemos nos outros. E o mal que vemos nos espelhos que chamamos de janelas.
Tenho notado que apesar de verdadeiramente maus, não nos conformamos em nossa condição. Nós queremos o bem que não conhecemos. A despeito de sermos ocidentais ou orientais, ateus ou religiosos, negros ou brancos, o que buscamos em nosso mundo é a correção do que somos; a cura para nossa deficiência, apesar de não notarmos nosso manquejar.
Por sermos maus, ainda sofreremos nas mãos uns de outros por querermos conquistar o que não sabemos o que é. Por sermos perversos, malignos e corruptos, ainda nos feriremos, e vez por outra até os mais sóbrios tombarão desse muro alto. Muitos morrerão. Mais genocídios ideológicos e verdadeiros aniquilarão nossas crianças, nossos sonhos, nossas flores. Mas no fim, de tanto lutarmos, encontraremos isso que nem sei nomear, mas alguns chamam de Paraíso.

Ho Hey by The Lumineers on Grooveshark

4.3.13

O casulo da alma


Aquele velho aperto de não saber para onde fugir. Quando paixões e crenças só parecem ser anestesiantes, produtos fabricados para retardar o crescimento. Quando tudo o que se quer é romper tudo. Sublimar. Transcender.
Mas esse casulo não se parte. Nada o faz frágil.
Eu não sei se meu desejo é de uma existência mais profunda e mais real, dado que nada nesse mundo me parece muito natural; ou se na verdade, o natural não sou eu. Como uma espécie de alienígena aprisionado em um globo azul dentro de um casulo móvel. Querendo rasgar com todos os velhos conceitos, e em seu ritmo cardíaco fora do compasso humano, voar de volta pra casa.

I Found You by Alabama Shakes on Grooveshark

1.2.13

Confissões de um louco


Sabe, você não assume logo de cara ser um quebrado. Não. Isso doeria demais, porque você vê as pessoas todas por aí, andando com suas duas pernas, todos os dentes na boca, os pensamentos em ordem, sabendo que lugar ocupam no mundo, vivendo naturalmente no senso comum. Esse é o lugar delas, e não há nada errado nisso, obviamente.
Mas você não é assim. Sim, você sabe, mas não sabe como mudar. Você é cercado de pessoas que também sabem, mas não querem te dizer como nem o porquê, porque também se sentem confusas e amedrontadas com você. Mas elas gostam de você. E você gosta delas. Por isso, tenta se adaptar no pensamento de que é claro que, quando um vai em uma direção e mais de 6 bilhões em outra, algo está errado com o avulso, não com a massa.
Você engole o medo e se infiltra. Tenta se mesclar na multidão, brilhando loucamente como uma caneta marca-página num estojo de esferográficas. Seu jeito é diferente, sua maneira de ser feliz não se encaixa, porque você não é bom como eles, simplesmente isso. Você nunca escreverá um poema ou rabiscará um papel de pão. Você não serve para fazer contas no bloco de notas, para rabiscar garatujas enquanto se fala no telefone. Você é muito desengonçado para isso. E a analogia para por aí; eu não vou tentar ser otimista, dizendo algo do tipo: "só você pode marcar páginas de livros", afinal canetas bic também fazem isso. Esse texto não é sobre ser otimista. É sobre coisas quebradas.
Por isso, na verdade, você continua se fazendo de normal, fingindo não sentir o que sente, negando o remédio que te oferecem por te fazer a boca seca e perder mais um pouco da lucidez. Você diz que não precisa, que está tudo bem, que seu esforço é o suficiente, e que você vai fechar os olhos (1,2,3...) e tudo vai passar, já que você mereceu, porque você foi bonzinho, orou direitinho para Jesus, porque você deu seu melhor. Você faria tudo para se prometer remendar, mas o que não quis assumir, o que sempre esteve na sua cara, escrito nos sinais e na forma como as pessoas te olham, o que está óbvio entre suas relações e nas entrelinhas de cada conselho de quem te ama, é indiscutível: você é um quebrado.
E o que não assume é que estará quebrado pra sempre.
Eu acho que os médicos chamam isso de loucura. Eu nasci com ela e nunca a admiti pelo pavor que essa verdade me causava. O pior dos terrores. Mas agora a abraço até com um certo carinho. Não orgulho. Não como algo que a usaria num pingente para exibir na rua. Mas como algo que eu sou. Eu amo minha loucura como amo minha mão ou meu pé, que são parte de mim. Não são admiráveis, nem sequer charmosos, mas permitem que eu funcione, e a menos que alguém me mate: um homem, Deus, o tempo ou o acaso, será o que sempre fui e nunca deixarei de ser. Pernas, pés, mãos, barriga e loucura.
Sou um quebrado, desfilando banguela e descabelado pelas esquinas do universo com meu passo torto, gritando alto, chamando atenção de quem dorme o sono dos justos e o repouso dos perversos, fazendo vigílias em tempo de paz, acompanhado de um cão velho chamado remorso.
Acredito que um dia, no meio dessas caminhadas claudicantes, vou encontrar um repouso no caminho. Se for o fim, será, se for o meio, descansarei. E então olharei para minha companhia, sentada comigo no banco de praça, meio-fio, grama alta, clarão de floresta, pátio de castelo, sofá de casa, hall de mansão, assoalho de masmorra, piso de banheiro, e direi que fui o que sempre fui.
Perdi meu anseio por redenção. Agora só quero ser sublimado.

Sorrow drips into your heart through a pinhole
Just like a faucet that leaks and there is comfort in the sound
But while you debate half-empty or half-full
It slowly rises
Your love is gonna drown


5.12.12

Bilhete

Fui assistir um filme de romance, e ouvi que não vendo meus sonhos. Que ironia pensar que, por desejar você, eu venderia todos eles.
Eu me tornaria o executivo magnata, o grande publicitário coxinha. Eu viveria à base de cafeína, ditando o que é bom e ruim. Saberia de quem puxar o saco, e como fingir que meu trabalho é o melhor do mundo.
Para ter seus olhos esparramados sobre a cama, seu apetite no jantar ou seu passo miúdo ao correr para me abraçar, eu aprenderia a mentir, dançaria uma valsa com a morte, entraria num duelo contra um furacão, desafiaria o demônio em um jogo de charadas e jogaria todos meus valores e virtudes do alto de qualquer penhasco sem graça.
Eu me tornaria o tal canalha que você finge não amar.
E eu escutei o clique das luzes acendendo, o público se movendo para sair da sala. Estirado sobre a poltrona do cinema, sozinho com a perna apoiada em qualquer canto, acabando com uma pipoca doce, olho para a poltrona vazia do meu lado. Te chamo pelo nome nenhum e te beijo em minha cabeça.
E penso que, se quando chegar você me perguntar como aguardei tanto, como foi esperar sua aparição, já que eu digo te amar desde sempre, talvez nada que eu diga a faça entender que sempre esteve lá.
Mas não se engane, você nunca teve um rosto; você não é sequer uma ideia, é muito real para que eu faça um retrato. Meu desenho embota na mente, minha definição perfeita se esgota, as palavras caem naquele vão entre o papel e o lápis, e o filme enrola e chega no final. Se você existe, eu nunca desconfiei, e se não existe, eu não paro de acreditar.
A voz do lanterninha me acorda, e eu te gravo na memória, como quem não tem mais contra o que lutar. Ele me aponta a saída, mas eu discuto se não há outra forma, se podemos negociar. Ele diz que não, que se eu quero ver o filme, tenho que sair e pagar, que os valores precisam ser entregues no penhasco sem graça. Que eu tenho um demônio para desafiar.
E tudo fica bem. Pode ser que você não exista. E ainda sem me dar uma só pista, eu penso no preço a pagar...

2.11.12

Desista

Desiste disso. Você não é o profissional que queria ser. O amante que queria ser. O sábio que queria ser. Você está cansado de seus rótulos e disso que as pessoas dizem sobre ser feliz. Você simplesmente não se encaixa em lógica nenhuma, mas é julgado por todos, e tem que carregar esse peso, essa marca miserável nas costas por não poder fazer nada sem que alguém diga algo sobre seu caráter. Porque você é muito pesado. Porque você é muito carente. Muito ácido. "Muito alternativo". Porque você não sabe ouvir um não. Não sabe nem se alegrar com um sim.
Aliás, quem é você?
Todo mundo parece saber. Menos você mesmo.
Vai continuar usando essa máscara de pele ou vai entrar pro baile? A valsa já começou e toda a humanidade já pegou seus pares. Só você, claro, que não. Você tinha que ficar de fora, criatura pequena, engraçada e mesquinha. Desiste disso de tentar ser você mesmo. Apenas seja qualquer outra coisa, um padrão na parede ou um pedaço de máquina. Somente seja você mesmo, desde que ser você mesmo seja aquilo que todo mundo espera de você.

4.10.12

Quanto?

Quanto vale seu amor?
Ou você não acredita mais nisso? Você acha que amor é apenas biológico, hormônios dançando em uma química irritante, nos dizendo o que fazer para saciar alguma fome invisível? Você já se tornou tão pragmático que guarda no histórico um site pornô, na agenda o telefone de uma garota fácil e no coração a certeza que tudo é descartável, em nome da alegria?
E se, ao contrário, você doa seu amor pra quem não quer (ou não merece)? Você se vê constantemente implorando por atenção, fazendo mais uma concessão, dando mais um passo, cedendo mais um metro, abaixando mais as calças. Tudo para manter o ídolo furioso que é seu ser amado aplacado através de um sacrifício de sangue - o seu sangue. Seus amores são sumidouros de alma?
Você joga com quem quer amar? Coloca a pessoa num labirinto, fazendo-a andar em voltas do prêmio que é você, iludindo-a com sinais falsos e portas secretas, disposta a assusta-la com monstros de fantasia e anjos 
que sussurram promessas, em nome de sua sedução e diversão, independente se o coração tão ardilosamente conquistado continuará um brinquedo interessante (ou não) na manhã seguinte?
Ou você é daqueles que se esconde no medo e faz da baixa auto-estima, do orgulho ferido, dos traumas e da falsa honestidade uma bandeira para afastar para longe quem mais quer por perto? Você vive no pretexto de ser salvo de um mal que você mesmo inventou?
Quanto vale o dom de poder amar?
Quanto vale, para a pessoa, ser amada por você?
Quanto vale a pessoa que você ama?
Quanto vale seu amor?


26.7.12

causa mortis

O bilhete foi encontrado pelo legista às 01h42 da manhã, dobrado no bolso da frente da camisa amarrotada e úmida de suor do homem morto. Era uma folha pautada com dobras rasgadas e manchada em vários pontos, mas escrita em uma caligrafia sóbria (e ironicamente alegre), em caneta azul esferográfica, com pernas compridas nos gês e jotas e sem pingo nos is.
Dizia:

"Esse é meu adeus. Eu sei que o tempo, corredeira veloz, passa por mim, que sempre fui barranco lamacento, arrancando as ultimas raízes e arbustos frutíferos que seguravam as margens da minha existência.
Em breve serei despedaçado, levado em partes ao oceano, onde minha memória estará perdida para sempre. Sinto isso nos meus ossos, na minha pele e na minha alma. Mas antes que tudo acabe, quero dizer que esse rio implacável, tal como meu espirito, tem o mesmo fim, afinal. Minha sina sempre foi desaguar no mar. Eu, que sempre me achei "terra firme", me dissolvi na inevitabilidade implacável. E, mesmo jovem, conhecerei o infinito, onde o azul de cima toca o azul de baixo, e a Terra, redonda ou quadrada, perde seu horizonte e se funde em um único tom absoluto. Ainda que jovem, cansei de ser barranco duro e cheio de certezas. Quero a paz do azul e a profundidade negra com seus mistérios. Quero me perder na liberdade de ser uma pequena partícula, um quase nada na imensidão de todas as verdades que talvez nunca entenderei. Então digo a todos que amei, que tomaram minhas frutas e pescaram sobre meu colo, todos que choveram sobre meus galhos tortos e me confessaram segredos de amantes nas madrugadas, que levarei vocês comigo, onde eu for. A terra não se esquece, e o oceano é grande o suficiente, mesmo para tanto amor, que talvez eu nunca tenha pagado com a merecida gratidão. Sem maiores analogias cansativas, guardo essa carta junto ao peito, onde sempre carreguei o mundo inteiro."

Diz o relato da perícia que o corpo foi encontrado, já sem vida, no tablado de uma pista de dança. Testemunhas disseram que o rapaz embalava uma música atrás da outra, ainda que não encontrasse um par para acompanha-lo. Alguns reportaram a tentativa de para-lo em seu frenesi maníaco, sem sucesso. Um amigo ofereceu uma garrafa de cerveja. Uma paixão da infância tentou distrai-lo com promessas. Foram chamados seguranças e todos os outros pararam de dançar, relatam, quando começou sua música preferida. Ele morreu no meio de um giro louco, de um grito rouco, de um passo em falso, nos braços daquela que conduzia, apaixonado.
A causa mortis foi revelada poucas horas depois, mas não era necessário ser perito pra constatar o que toda festa já sabia ao vê-lo rodar e pular, transpirando e sorrindo num sorriso doído perto do fim. O rapaz, descontroladamente feliz e certo de todas suas decisões, morrera do coração.

12.6.12

Filha de estrelas


Em seu nome tem alegria, garota. E mesmo hoje, quando todos parecem estar sorrindo ao amor e seu gosto é solidão, sorria com essa sua alegria, porque tua solidão é pura. Não foi comprada barata em uma loja de penhores. Você não é uma jóia gasta e riscada, entregue ao tempo e as mazelas de tantos donos.
Você é inteira.
Então, se hoje sente solidão, abrace-a. Ela não está ai como punição aos seus erros, nem quer te castigar. A solidão é teu estado natural. Portanto hoje, beije-se, presenteie-se, ame-se. Saia para passear por um lugar bonito, passe mais tempo consigo mesma.
Mas também aprenda a amar de novo. Sorria para um estranho. Em vez de esperar flores, dê elas para um rapaz bonito. Não espere que o tempo aconteça fora do teu relógio, porque esse apressado não espera ninguém. Vai deixando para trás tudo que te faz sentir pequena, culpada ou feia.
Você é feita da mesma matéria das estrelas. E o que te diferencia das outras é apenas saber disso.
Hoje também é teu dia, garota linda, cheia de esperança, com alegria no nome. Você é namorada de si mesma, e será ainda mais de quem souber achar você, estrela rara no céu nublado.


16.5.12

A oração do super-herói

Deus, dê-me o poder de um super herói; desses que a gente não vê na tela nem na HQ. Não preciso correr mais rápido que um cometa ou erguer com os braços tanques de guerra. Quero fazer a maravilha de sofrer metamorfose. Quero me erguer todo dia de um leito de morte, onde deixo um pouco da casca do casulo, e daí criar asas na mente, até que um dia, voe.
Deus, torne-me indestrutível, para que eu não 
me destrua. Dê-me tal poder para derrotar meu arqui inimigo, o eu, e assim salvar o mundo; o que você me deu. Me faz acordar todo dia maior, mais claro e mais forte, brilhanto mais intenso que a dor que ontem senti.
Dai-me o poder do contágio, Pai. Para que a metamorfose se siga numa corrente de liberdade e bem querer. Faça minha força um prodígio, um milagre, para que eu salve a cidade das almas que amo e lute contra o crime de meu próprio caráter quebrado.
E que por esse poder Você transforme, em igual intensidade, o ódio em gentileza, a impaciência em mansidão, o egoísmo em bondade, a amargura em docilidade, e por fim, a morte em vida. Então não terei mais identidades secretas.
Chamarei Homem-Luz para Você.

13.5.12

Trançando mortalhas

A gente tenta descobrir qual é o segredo da vida.
Porque seu próprio conceito nos foge, na verdade. A gente tenta, o tempo todo, transcender a morte (seja lá qual sentido queira dar a essa, também). A felicidade, o sucesso, os sonhos; tudo isso faz parte da trama de fantasia que criamos, todas tentativas de descoberta, o fim do segredo que falamos, afim de desvendar o silencio do espirito. A vitoria sobre a grande incógnita do fim.
Mas essa busca é dolorosa, pois, quanto maior seu apego pelo que acredita ser capaz de te fazer transcender, tão maior serão suas frustrações ao descobrir que essas fantasias são impossíveis de controlar. A vida (ou seja lá o nome que você der a essa idéia de consecutivos fatos incontroláveis) costuma, numa ironia fina, te tirar das mãos aquilo que você mais deseja no ultimo instante, deixando no paladar da alma apenas a sugestão do aroma doce do sonho nunca provado. A vida costuma nos negar as alegrias que buscamos, como uma velha freira amargurada no internato da existência. Mas, ainda assim, é bela e breve.
Imagino nossas almas nessa tarefa de trançar, lentamente, nossa própria mortalha. Algumas são de padrões belos e sóbrios. Outras, coloridas e cheias de formas extravagantes. Mas ainda existem as confusas, apenas remendos de outras tantas mortalhas que foram desfiadas e tricotadas novamente, com cores desarmonizadas, cheias de costuras e buracos. Essas mal cabem no corpo que cobrem, no fim da linha.
É quando propomos tantas coisas, afirmando com tanta certeza, lutando nossas pequenas batalhas com tanta violência, agredindo, mordendo e matando por um assento livre no ônibus, por um beijo amoroso de um amante fiel, por um brinquedo de papel solto no ar; tentando viver de maneira tão pesada o que, de outra forma, seria tão singelo, que eu acho que perdemos o fio da meada.

http://tinysong.com/129ec

8.4.12

Prateleira do drama

Não tenho mais paciência para filmes ruins, para essa enrolação na trama, esses personagens clichês. Não consigo mais assistir uma história repetida.
Mas de tudo, o que eu mais odeio é a pretensão de todo mundo que assiste à peça e aplaude. O gosto massificado, que virou uma formula de sucesso, virando único padrão de se fazer qualquer coisa. A verdade definitiva. Eu cansei do simulacro, dessa gente que troca o verdadeiro, o real, o sincero, por aquilo que dizem ser normal. Só porque todos fazem dessa forma, ou porque dizem que assim seria o certo.
Cansei dessa gente que esmaga o singelo e o puro em troco de duas horas de ação frenética e sem sentido. Quem não reconhece um bom romance silencioso e que corre logo para a estante do terror, pois só sabe sentir o gosto de sangue. Cansei dessa intensidade fabricada, repetida, revista e recopiada. Os super-heróis inumanos que ganham infinitas reprises de suas vidas patéticas, ideologias rasas e poderes sem sentido.
Porque todo romance precisa ser comédia? Porque todo drama só acontece no Iraque? Porque a mocinha pura e delicada sempre padece na mão de um bonitão malvado antes de virar a mesa e se tornar uma mulher sedutora ou uma assassina vingativa?
Eu não sei porque as pessoas gostam tanto do impossível. Eu não sei porque elas se acomodam tanto com o absurdo. Eu não sei nem se ainda estou falando de filmes.

21.3.12

quer dizer

- eu te amo
- não, você está confundindo tudo
- confundindo? confundindo o que?
- você disse que me ama
- não, é impressão sua, eu fiz uma brincadeira.
- sério?
- sério, você é quase meu brother.
- ah, tá.
- relaxa...
- eu estou relaxada, só que...
- só que o que?
- sei lá, por um momento, pensei que fosse de verdade.
- é mesmo?
- sim.
- que pena, né.
- é...