8.4.12

Prateleira do drama

Não tenho mais paciência para filmes ruins, para essa enrolação na trama, esses personagens clichês. Não consigo mais assistir uma história repetida.
Mas de tudo, o que eu mais odeio é a pretensão de todo mundo que assiste à peça e aplaude. O gosto massificado, que virou uma formula de sucesso, virando único padrão de se fazer qualquer coisa. A verdade definitiva. Eu cansei do simulacro, dessa gente que troca o verdadeiro, o real, o sincero, por aquilo que dizem ser normal. Só porque todos fazem dessa forma, ou porque dizem que assim seria o certo.
Cansei dessa gente que esmaga o singelo e o puro em troco de duas horas de ação frenética e sem sentido. Quem não reconhece um bom romance silencioso e que corre logo para a estante do terror, pois só sabe sentir o gosto de sangue. Cansei dessa intensidade fabricada, repetida, revista e recopiada. Os super-heróis inumanos que ganham infinitas reprises de suas vidas patéticas, ideologias rasas e poderes sem sentido.
Porque todo romance precisa ser comédia? Porque todo drama só acontece no Iraque? Porque a mocinha pura e delicada sempre padece na mão de um bonitão malvado antes de virar a mesa e se tornar uma mulher sedutora ou uma assassina vingativa?
Eu não sei porque as pessoas gostam tanto do impossível. Eu não sei porque elas se acomodam tanto com o absurdo. Eu não sei nem se ainda estou falando de filmes.

21.3.12

quer dizer

- eu te amo
- não, você está confundindo tudo
- confundindo? confundindo o que?
- você disse que me ama
- não, é impressão sua, eu fiz uma brincadeira.
- sério?
- sério, você é quase meu brother.
- ah, tá.
- relaxa...
- eu estou relaxada, só que...
- só que o que?
- sei lá, por um momento, pensei que fosse de verdade.
- é mesmo?
- sim.
- que pena, né.
- é...

19.3.12

Varanda

As vezes a gente sai na varanda só pra pensar.
Ver a vida de cima dá uma sensação de distanciamento. Talvez seja o desapego, ou o tamanho que ficam as pessoas ao olhar. Dá pra fantasiar que são insetos, prontos para serem esmagados debaixo de botas pesadas. As mesmas que nos estão esmagando nas baias do escritório.
Dá pra pensar que o longe está perto, e que estamos próximos do céu.
Dá pra sonhar em pular e esperar que alguém nos salve no meio da queda, como fazemos o resto do tempo.
Dá pra ser outra pessoa. Dá pra chorar sem que ninguém veja, e esperar que o vento seque o rosto molhado.
Dá pra ficar em silêncio sem que o azul nos obrigue a dizer algo interessante. Na varanda, não importa se você é engraçado, interessante, divertido, bonito, ou se consegue manter o rumo da conversa. Lá fora, você é apenas um ponto debruçado no prédio alto e frio.
Dá pra conversar consigo mesmo sem ser chamado de louco.
Dá pra descansar nas próprias mentiras.
A varanda é o ponto extremo, um espaço pequeno para lembrar que tudo que você precisa é de um passo. Pra viver ou pra morrer.

3.2.12

Lumière

Toda noite um passarinho vêm me visitar.

Entra pela a janela aberta e me canta uma música bonita, e tudo se torna leve como seu peso sobre meu peito, nas madrugadas de luzes e sons.

Quando desperto e olho pela janela vazia, percebo como sua canção entrou no meu dia. Me pego ansiando pelo momento perfeito, o silêncio que precede a alvorada, quando os passarinhos cantam.

Meu passarinho me fez viver da espera. E nunca foi tão leve esperar.

17.1.12

Paraíso num fio de algodão

A gente vai aprendendo a se desprender.
É como soltar-se aos poucos do medo de que, se a gente soltar o próprio medo, o que importa irá embora. E o medo é o medo do vento forte.
É o medo de que, ao entregarmos aquela pipa bonita ao ar, o estirante vai estourar e só fiapos da seda colorida dançarão no céu de tempestade. A gente tem medo é da perda, do vento que leva embora os sonhos de rabiola, fita e cola.
Há então quem passe o tempo todo olhando para sinais. As folhas de árvores que dançam numa direção, o sentido que cai a água que escorre, a força que as roupas balançam no varal. Tentam até medir o invisível, à dezenas de metros de altura, como quem descobre padrões maiores que eles mesmos. São os meteorologistas de elevador, graduados na teoria da dor.
Gente assim não solta pipa, pois sentem apego pelo medo do vento forte. Desistiram das cores que dançam contra o céu ora cinzento, ora azul profundo. Desistiram da sensação de leve controle sobre o brinquedo frágil, a linha que puxa a pele com delicadeza, o som distante das fitas que chicoteiam o ar. Desistiram do amor por todas essas coisas frágeis, cuja perda é dor maior que se espera.
Só que um dia a gente aprende a se desprender. Mesmo sabando que pode enroscar, que um homem maldoso de cortante e pipa preto dará um rasante e veremos outra peça flutuar para longe, que a chuva pode surgir do nada, reduzindo o papel fino do novo sonho à furos e rasgos. Mesmo sabendo que poderá doer no peito a saudade das cores que voam.
Nós continuaremos dando linha, só para saber quão alto chegaremos.
E quem sabe um dia, contra todas as expectativas de quem acha que conhece o vento, subamos tão alto que achemos o paraíso através de um fino fio de algodão.